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Variedades Quinta-feira, 10 de Setembro de 2026, 22:51 - A | A

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Mistério no Egito

Arqueólogos descobrem ‘porta’ que ligava o mundo dos vivos aos mortos

Porta em tumba de 4 mil anos de alto funcionário egípcio não levava a lugar nenhum, mas tinha uma função espiritual.

Por Felipe Espinosa Wang/G1

Alguns governantes do Egito Antigo deixaram pirâmides como monumentos funerários.

Outros integrantes da elite tiveram sepulturas muito mais discretas, embora nem por isso menos reveladoras sobre sua posição social.

É o caso de Sekhentiu-Ptah, um alto funcionário cuja tumba, com cerca de 4 mil anos, acaba de ser descoberta em Saqqara, a antiga necrópole de Mênfis, ao sul do Cairo.

A tumba tinha uma porta falsa para "ligar os vivos aos mortos".

O achado, anunciado pelo Ministério do Turismo e Antiguidades do Egito, faz parte de uma escavação realizada na região do Bubasteion, a oeste da necrópole. Em períodos posteriores, a área ficou associada ao culto da deusa-gata Bastet.

egundo o comunicado oficial, os envolvidos na descoberta seguiram um rigoroso programa científico que incluiu escavação estratigráfica, documentação arquitetônica e fotográfica, digitalização de achados e estudos linguísticos.

A coordenação ficou a cargo de Hisham Al-Lithi, secretário-geral do Conselho Supremo de Antiguidades.

Embora a tumba seja a principal descoberta, ela não foi o único achado do local.

Os arqueólogos localizaram vários poços funerários contendo restos humanos e mais de cem ushabtis de faiança, pequenas estatuetas colocadas nas tumbas para acompanhar o falecido na vida após a morte.

Foto: Ministério do Turismo do Egito

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'Guardião dos segredos'

As inscrições hieroglíficas encontradas na tumba permitiram identificar Sekhentiu-Ptah e reconstruir a extensa lista de cargos que ocupou.

Segundo o ministério egípcio, ele exerceu funções como camareiro real, supervisor das obras do rei, supervisor dos documentos reais, sacerdote da deusa Maat e chefe dos escribas.

Um desses títulos, traduzido como "guardião dos segredos dos decretos reais", pode soar misterioso. No entanto, é provável que correspondesse a uma função administrativa bastante convencional.

Em entrevista ao portal Live Science, a egiptóloga Ann Macy Roth, da Universidade de Nova York, que não participou da escavação, explicou que o título era comum entre os escribas reais e provavelmente apenas indicava que, por lidar com documentos da corte, ele tinha acesso a informações confidenciais.

Sekhentiu-Ptah viveu durante o Império Antigo, período em que foram construídas as grandes pirâmides, incluindo as de Gizé.

Roth acredita que os elementos arquitetônicos da tumba datam do final da 5ª dinastia e início da 6ª. Com base nas características, os achados teriam sido construídos há aproximadamente 4.350 anos.

Foto: Ministério do Turismo do Egito

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A falsa porta e o enxoval funerário

Talvez o elemento mais impressionante da tumba seja a chamada "falsa porta", um componente comum da arquitetura funerária egípcia.

Ela não era uma porta funcional nem tinha a finalidade de impedir a ação de saqueadores. De fato, a tumba foi violada em algum momento de sua longa história.

Mas o significado dessa porta era religioso: acreditava-se que ela funcionava como um ponto de ligação com o além e permitia ao espírito do falecido transitar entre os dois mundos.

Diante da porta foram encontrados diversos objetos funerários. Segundo o comunicado do ministério, os arqueólogos identificaram uma mesa de oferendas, uma peça destinada ao ritual do qurban, ou seja, de sacrifício, uma bacia de purificação, um jarro e uma esteira, todos com inscrições hieroglíficas.

A escavação também revelou outros materiais. O ministério informou a descoberta de três sarcófagos de pedra que permaneciam lacrados desde a Antiguidade, além de uma escultura de madeira em forma de falcão e grandes quantidades de cartonagem funerária colorida.

Sobre a figura do falcão, o Live Science destaca uma possível associação com Hórus, o deus egípcio representado com cabeça dessa ave.

O que ainda não foi encontrado, porém, é a própria múmia de Sekhentiu-Ptah. Segundo Roth, o espaço pode ter sido reutilizado após o sepultamento original, uma prática comum no Egito Antigo.

Isso explicaria por que alguns dos ushabtis e fragmentos de cartonagem parecem pertencer a pessoas enterradas ali posteriormente.

Foto: Ministério do Turismo do Egito

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Saqqara continua revelando novos tesouros

Declarada Patrimônio Mundial pela Unesco, Saqqara é centro de pesquisas arqueológicas desde o século 19 e continua proporcionando novas descobertas.

A necrópole desempenhou papel central durante o Império Antigo, aproximadamente entre 2700 e 2200 a.C., quando recebeu sepultamentos de membros da realeza e da elite egípcia.

Seu uso funerário, no entanto, não terminou nesse período e se estendeu até a época romana.

Em entrevista à revista Smithsonian Magazine, Campbell Price, curador das coleções de Egito e Sudão do Museu de Manchester, falou da importância simbólica do local. Segundo ele, Saqqara era o lugar "onde se queria ser visto morto", devido à sua reputação como porta de acesso ao além.

Mas Saqqara não abriga apenas tumbas de funcionários como a de Sekhentiu-Ptah. O sítio arqueológico também reúne pirâmides reais, incluindo a famosa Pirâmide de Degraus de Djoser, além de uma vasta necrópole subterrânea dedicada a animais.

Essa diversidade levou o arqueólogo Magdy Shaker a afirmar, em entrevista ao portal Al-Monitor, que Saqqara reúne boa parte da história do Egito Antigo, em contraste com o foco mais restrito das pirâmides da 5ª dinastia em Gizé.

O potencial arqueológico e turístico da região levou as autoridades egípcias a investirem na melhoria dos acessos e da infraestrutura para visitantes. Ainda assim, Saqqara continua ofuscada por sua vizinha mais famosa: as pirâmides de Gizé.

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